Planeta Sustentável - 1ª parte
Você pedala de fato vinte quilômetros por dia até chegar ao trabalho? (Descreva um pouco dessa rotina, desse trajeto, dos diferentes tipos de ruas, de paisagens, dos obstáculos até chegar lá e voltar).
Para ser mais exato, a média de cada trecho (de casa para o trabalho e vice-versa) deve ficar em uns 18 km. Depende um pouco do caminho escolhido, e este pode variar de acordo com a minha disposição para pegar ou não alguma via mais movimentada, o que geralmente encurta o trajeto. Mas na maior parte das vezes eu opto… pelo caminho mais longo!
Tal escolha só é possível porque um ciclista pode se gabar de algo que nenhum motorista paulistano tem: sabe exatamente o tempo que levará entre um ponto da cidade e outro. Sem pressa alguma, e sem ser um atleta, mantém-se uma velocidade média de 17km por hora, o que é muitas vezes semelhante, e às vezes superior, à velocidade média de um veículo motorizado.
Basicamente, muda o ritmo. Você avança “quarteirão por quarteirão”, como nós costumamos dizer. Um semáforo verde um pouco mais distante é um sinal para se parar de pedalar e aproveitar a inércia da bicicleta, não pisar no acelerador, como qualquer motorista faria.
E essa diferença, de um ritmo lento e constante, em oposição ao acelera e pára dos automóveis, possibilita uma percepção muito mais rica em detalhes do caminho que se está fazendo (também não há janelas com insul-film atrapalhando o seu campo de visão). Sobra tempo para se observar as peculiaridades de cada bairro, rua e até dos moradores.
Como seus colegas reagem a essa “aventura”?
A reação tende a ser uma mistura de incredulidade, admiração, curiosidade… Nos últimos tempos, com as sucessivas quebras de recordes de congestionamento em São Paulo – que sabemos de antemão, sem usar nenhuma dose de futurologia, serão batidos outras tantas vezes nos próximos meses –, eu tenho ouvido frases como “que inveja, você não fica parado neste trânsito”. Inveja em muitos casos injustificável, já que ao preço de talvez uns 5 tanques de combustível (desculpe, mas realmente não sei a quantas anda o preço da gasolina), quem quisesse poderia comprar uma bicicleta para vir pedalando para o trabalho também, nem que fosse uma vez por semana.
Já há até um dia ideal para se fazer isso, o do rodízio de veículos, e muitos colegas que moram num raio de 5 km a 10 km do nosso local do trabalho (que para facilitar fica numa área razoavelmente plana), poderiam, ao menos, fazer essa experiência.
É neste ponto que começam a surgir as desculpas, umas com fundamento, outras nem tanto. A principal delas fala da ausência de vestiários no prédio, e contra esta, por enquanto, eu tenho pouco argumentos para responder.
Afinal, o que fazer se no prédio onde trabalho há um heliponto para quem quer chegar de helicóptero, mas não há um vestiário para quem optar por chegar de bicicleta, a despeito dos benefícios que tal atitude pode trazer (funcionários mais pontuais e bem dispostos, com uma dose de endorfina para começar o dia)?
O que levou você a vender seu carro, três anos atrás?
Antes de vender, eu já vinha restringindo bastante o uso. Em 2004, ano eleitoral, com São Paulo repleta de obras sendo feitas ao mesmo tempo, a toque de caixa, acho que houve uma piora sensível nos congestionamentos, pela manhã também, aquela coisa de eles não ficarem mais restritos ao final da tarde…
Quero dizer, não tenho dados, mas eu, morador da Zona Sul que tinha que ir ao Centro todos os dias, senti isso. Só nessa região estavam sendo implementados dois novos corredores de ônibus (daí grande parte do trânsito, durante as obras e depois delas, quando os carros particulares “perderam” uma faixa em alguns trechos).
E o lançamento do Bilhete Único também foi um impulso para eu deixar mais o carro em casa. Chegava a fazer mais de quatro baldeações no tal período de duas horas permitido, na tentativa de chegar com a mesma rapidez e aos mesmos lugares que o carro me levava. Às vezes, conseguia até equiparar esse tempo do automóvel, geralmente, não. Mas utilizar ônibus era certamente mais barato e menos estressante.
Aos poucos, passei a utilizar também a bicicleta para ir a determinados lugares, conforme a distância, horário, clima, se havia lugar para parar, essas coisas.
No fim, acho que fui quebrando aos poucos a dependência que todos temos em relação ao automóvel, uma relação não muito simples de ser analisada, subliminar, mas que penso não ser saudável na maioria das vezes. (Talvez com as imagens deste cartoon, de um artista chamado Andy Singer, eu consiga me expressar melhor).
O começo dessa nova rotina foi muito difícil? (Exigiu muito preparo físico, muita habilidade para pedalar com segurança etc.)
Uma coisa importante a ser desmistificada é que quem usa bicicleta como meio de transporte não precisa ser atleta e, muito menos, não precisa ter uma bicicleta cara, “de corrida”, último modelo. Apesar das tentativas da mídia em encontrar uma solução “veloz” para quem não quer ficar parado no trânsito. (Veja, por exemplo, a visão completamente equivocada de um “ciclista urbano” contida neste infográfico)
Claro que no caso de quem pedala diariamente 40 km e daí para cima (e há gente que pedala muito mais), é necessário ter um certo preparo físico. Mas isso você vai ganhando com o tempo.
Quanto à habilidade para pedalar com segurança, ela também vem com o tempo. E para isso, quem quiser se aventurar, sempre poderá contar com a colaboração e boa vontade de ciclistas mais experientes.
Quem quiser fazer um teste, pode mandar uma mensagem para o email da Bicicletada e ver quantos pessoas se oferecerão para ajudar nas primeiras pedaladas, ser uma espécie de padrinho, dando dicas de segurança e indicando caminhos. Capaz até de receber a oferta de um empréstimo temporário de bicicleta…
Coisa tão diferente de um carro, não? Alguém consegue imaginar uma oferta do tipo: “Olha, eu tenho um segundo automóvel aqui, que não uso, e você pode pegar emprestado se quiser, tá?”
Ao andar de bicicleta, você se relaciona com a cidade de um jeito diferente? Como?
Com certeza, não só com a cidade, mas principalmente com seus habitantes. A bicicleta humaniza o trânsito, meio em que as relações entre as pessoas estão o mais “desumanizadas” possível. Como escreveu um colunista do Estadão noutro dia, em São Paulo, o que existe entre um carro e outro é… um motoboy.
Quem pode dizer que conhece, diariamente, uma pessoa no trânsito? Um ciclista pode. Se quiser puxar conversa, então, esse número cresce. Não há um dia em que não recebo e retribuo pelo menos uns 10 cumprimentos nas ruas. Arrisco dizer que toda a solidariedade que falta entre os motoristas, tem de sobra entre quem usa bicicleta.
Além de mais “humano”, um ciclista se angustia menos no trânsito e vive menos situações de estresse limite que se tornaram tão corriqueiras.