Planeta Sustentável - 2ª parte

Qual o maior inimigo dos ciclistas: os motoristas, a indústria automobilística ou os políticos?

Os três são inimigos “de respeito”, eu diria, mas penso que há um maior, pairando sobre os dois primeiros, que é a propaganda.
Vou separá-los em parágrafos, para ver se consigo atacá-los melhor.

Propaganda e indústira automobilística
A propaganda da indústria automobilística, cada vez mais onipresente, mostra-se cada vez mais nefasta. Tente assistir a qualquer programa na TV em horário nobre em que não haja um intervalo com pelo menos uma propaganda de automóvel, com slogans e mensagens como “ou você anda na linha, ou você anda no novo Vectra GT”, “a vida na cidade é uma aventura” e por aí afora. Não vou aqui demonizar o automóvel – já há muitos textos e vídeos sobre isso disponíveis na internet –, mas o fato é que, assim como nas ruas há uma completa inversão de valores e os mais frágeis (pedestres, ciclistas, motociclistas) não têm preferência sobre os mais fortes (carros, ônibus e caminhões), a propaganda da indústria automobilística subverte a lógica das coisas. Sem medo de parecer ridícula.

Assim, a maior montadora do país não hesita em lançar uma campanha falando na preservação de “passarinhos”, “plantinhas” e “pôr-do-sol”, da mesma forma que uma fabricante de motos não se acanha em fazer um anúncio que mais parece um videogame, em que seu último modelo, indestrutível, vai derrubando todo e qualquer obstáculo que cruza seu caminho. pela frente. Ou uma outra montadora acha verossímil associar um de seus modelos ao termo “eco”, por mais insólito que isso possa parecer.

Às vezes, a influência negativa da propaganda resulta apenas em algo patético (como aqui e aqui), mas infelizmente sabemos que é grande o número de vezes em que a incitação a um comportamento “arrojado”, “veloz” e “agressivo” atrás do volante termina em tragédia.

De minha parte, torço para que algum dia sejam aceitos processos contra os efeitos maléficos dessas propagandas, da mesma forma como hoje já se faz contra a indústria tabagista.

Motoristas
A propaganda também parece ter um papel preponderante no processo de “turvamento da razão” que faz com que uma pessoa não se dê conta de que um carro pode ser uma arma, que pode colocar a vida de outro em risco ao usar seu automóvel e jamais deveria avançar para cima de um pedestre ou passar muito próximo de um ciclista (a lei fala em 1,5 de distância mínima, algo jamais experimentado por mim em uns bons milhares de quilômetros pedalados por aqui).

Sem dúvida este fenômeno não é novo, mas vem sendo agravado pelo estresse sem precedentes ao qual o motorista paulistano é submetido. Para ficar num panfleto mais “palatável” contra este tipo de motorista, recomendo um desenho animado feito pela Disney há quase 60 anos, Motormania.

Políticos
São Paulo não acordou com o “caos do trânsito” instalado de um dia para o outro, nem sua singela frota de 6 milhões de veículos surgiu de uma hora para outra. Isso é decorrência de décadas de políticas públicas que privilegiaram o transporte feito por carros particulares. E aflige perceber que, mesmo com este caos “súbito” instaurado, essas políticas continuam.

Por exemplo, estamos prestes a comemorar a inauguração do mais novo cartão-postal da cidade, a ponte Estaiada, obra única no mundo, orçada em R$ 275 milhões (custo equivalente ao da implementação de mais de 1.000 km de ciclovias! Sabe-se lá o que representaria isso? Bogotá transformou a sua realidade com pouco mais de 300 km). Como em outras obras viárias equivocadas, a nova ponte não permitirá o tráfego de pedestres, ciclistas e ônibus de transporte público.

Outro risco, é acreditar em soluções tecnicistas milagrosas, como se “investir em tecnologia” (câmeras de monitoramento e semáforos inteligentes)” e “triplicar o número de marronzinhos” tenham algum efeito sobre o problema real, o excesso de veículos. (Veja como parecem deslocadas as soluções encontradas no parágrafo sobre “Trânsito” desta matéria, de apenas alguns meses atrás).

Ou ainda achar que limitar a circulação dos 330 mil caminhões que trafegam por São Paulo, como já se fez com veículos de tração animal – ciclistas e catadores de papel ainda não incluídos nesta lista –, possa resolver alguma coisa no médio prazo.

Essas são medidas paliativas, todos sabemos, embora a maioria não consiga, ou não queira, enxergar.
A solução passa, necessariamente, por reduzir o número de automóveis particulares em circulação, qualquer pessoa dotada de lógica saberia apontar este número gritante de 6 milhões como vilão.

Em vez disso, o poder público fala em construir mais vias para automóveis e sugere a adoção de “rotas alternativas”, usando ruas de bairros… Desculpe, a analogia com um cardíaco aqui é inevitável. Pode-se construir mais e mais pontes (de safena), mas uma hora o paciente vai enfartar. Aí, o último que sair, por favor desligue o motor.

Você já tentou contato com a prefeitura para reivindicar melhores condições de circulação para os ciclistas?

Eu tendo, ou tendia, a achar a “causa” ciclística muito quixotesca. Quer coisa mais desigual do que um confronto entre bicicletas x SUV’s?

E também, sinceramente, se até agora não consegui mudar nem o meu próprio local de trabalho – que chama de “vestiário” um misto de banheiro sem porta e depósito de material de limpeza, mas tem um lindo heliponto caso eu queira chegar de helicóptero – o que conseguirei fazer para mudar a cidade?

Penso que um caminho natural de todo ciclista é se tornar pouco a pouco um “ativista”. Como também o é a vontade que todos temos de convencer outros a começarem a pedalar, nem que seja ocasionalmente.

Tenho procurado entrar em contato com representantes do poder público, como a vereadora Soninha e o secretário Eduardo Jorge (Verde e Meio Ambiente) – dois exemplos raros de gente que acredita e defende a bicicleta como meio de transporte –, e até na subprefeitura do meu bairro ando pensando em ir, com sugestões para melhorar a vida de quem pedala por lá.

Na sua opinião, os paulistanos são resistentes ou preconceituosos com relação à bicicleta como meio de transporte?

As duas coisas. Eu costumo dizer que a maior adversidade para quem usa a bicicleta como meio de transporte em São Paulo – porque não tem carro ou porque não quer utilizá-lo – não é sua topografia, seu gigantismo, seu clima, nem mesmo sua poluição: é o comportamento descuidado, por vezes até hostil, de parte de seus motoristas.

No trânsito, ouve-se de tudo. De palavrões, que são a coisa mais corriqueira, até frases que incomodam mais, como um patético “Eu pago IPVA” ou, principalmente, “Sai da rua”. O motorista tende a negar ao ciclista o direito de trafegar na mesma via que ele. É a mesma lógica de quem culpa a facilidade de crédito e os carros sendo vendidos a 99 prestações pela piora do trânsito. Imagine se o direito de utilizar a mesma via for estendido também a todos os possuidores de bicicletas? Mesmo sabendo que cada bicicleta representa um carro que foi deixado na garagem ou, mais comumente, um assento livre em um ônibus, esta realidade assusta.

É sobre isso que fala o filósofo André Gorz em seu brilhante artigo “A Ideologia Social do Automóvel” (disponível para download aqui). “O grande problema dos carros é o fato de serem como castelos ou mansões à beira-mar: são bens de luxo inventados para o prazer exclusivo de uma minoria muito rica, os quais em concepção e natureza nunca foram destinados ao povo. (…) O carro, como uma mansão à beira-mar, é somente desejável e vantajoso a partir do momento em que a massa não dispõe de um.”

O que levaria você a voltar a ter um automóvel?

A partir do momento que eu tiver filhos pequenos, acho que me verei obrigado a comprar um, mas pretendo utilizá-lo da forma mais racional possível,

Mas quem sabe um dia eu consigo levar meus filhos para a escola assim? Ou, mais provável, talvez tenha que esperar para fazer isso com os meus netos, mas não custa sonhar.

Acho que em 2008 estamos vivendo um turning point. Nunca se falou tanto de trânsito, virou tema central até dos candidatos à prefeitura. E a bicicleta pode se aproveitar disso. Um exemplo? Anteontem, uma apresentadora de telejornal da Globo comentou no ar que havia ido ao trabalho pedalando e reclamou, claro, das adversidades encontradas no caminho. Isso pode parecer algo sem importância para um motorista, mas foi visto como uma tremenda vitória por cicloativistas como eu.

Estamos, sem dúvida, passando por um ponto de mudança. Torçamos para que seja uma mudança na direção certa.

Para saber mais
Recomendo o documentário “Sociedade do Automóvel”, disponível na íntegra aqui e com trailer aqui.
Aos que não se importarem em ler críticas mordazes ao automóvel, uma sugestão é baixar a versão digital do livro “Apocalipse Motorizado

E a visita a sites como:
Apocalipse Motorizado

Bicicletada

CicloBr

Escola de Bicicleta

Transporte Ativo

Vá de bike!